domingo, 8 de setembro de 2013

Onde está a literariedade nos textos


Este é o texto de minha participação na aula de literatura, que tem como debate o texto da Prof. Márcia Abreu que questiona a literariedade de um texto qualquer, entre suas indagações: como um texto pode ser considerado uma obra literária? E em meu texto incluí Adelaide Carraro, a grande escritora brasileira, espero que gostem. 

Deixando de lado os pormenores avaliativos, como os critérios que uns vão concordar e outros não, vamos direto ao que interessa. No texto ficou claro que, o modo como o leitor lê (ou vê) o texto, faz com que ele já crie uma opinião pessoal, ou forme um pré julgamento, e no texto este exemplo fica claro quando ela relata o modo como o livro de Machado de Assis foi recusado pelas editoras, e pela professora que lê o poema Teresa e o porquinho da índia, que já sabendo que o texto seja do livro de Manuel Bandeira percebe a repetição e a redundância passando de defeito a virtude. 

Logo no início a autora já nos chama para a reflexão do texto, que é o que realmente importa, conforme descrição da página 23 "Os critérios de seleção, segundo boa parte dos críticos, é a literariedade imanente aos textos, ou seja, afirma-se que os elementos que fazem de um texto qualquer uma obra literária são internos a ele e dele inseparáveis, não tendo qualquer relação com questões externas a obra escrita, tais como o prestígio do autor ou da editora que o publica por exemplo."
Um mesmo texto ganha sentidos distintos de acordo com aquilo que se imagina, mas precisamos saber que não temos que imaginar antes de ler, temos que LER, RELER e LER novamente até entender exatamente o que o escritor escreveu. 

E neste contexto eu me lembro da querida e saudosa escritora Adelaide Carraro, que na época de lançamento de seus livros era rotulada como "escritora maldita" por fazer denúncias de importantes políticos e empresários, Adelaide também era vista como escritora de literatura pervertida e erótica. Mas para quem leu suas obras, e acompanhou sua vida através dos livros, sabe que essa  "rotulação" é indevida e injusta, e em nada retrata a realidade de seus livros.

Para quem não conhece, Adelaide Carraro* foi uma grande escritora brasileira, autora de grandes sucessos como "O Estudante" e "Eu e o Governador", mas que por descrever em detalhes cenas de sexo, onde inclusive denunciava pessoas que abusavam do poder para obter sexo com jovens, moças ou rapazes em troca de cargos públicos e empregos, tanto na política como no setor artístico como a televisão, ficou classificada deste modo, pelos mesmos críticos que não leram em sua obra, seu grande esforço nas causas sociais, como a criação da casa do ex tuberculoso pobre, quando defendia a idéia de que ex prostitutas e travestis dependiam de empregos dignos para não viverem mais na obscuridade da sociedade e outros temas de grande sensibilidade. Adelaide defendia também o fim do racismo racial e tinha um forte apelo contra os maus tratos a animais, isso e muito mais o leitor pode sentir e vivenciar em sua extensa obra, inclusive no ano de 2006 conversei com Antônio Carlos Carraro, sobrinho da escritora mencionado em seu livro "Gente - o dia em que fui presa"de 1977, e ele me confirmou que sua tia era tão sensível a ponto de retirar animais de rua  e levá-los para a própria casa. 

Existe um fato muito oportuno a dizer sobre a Adelaide Carraro exatamente em relação a questionamento de literariedade, certa vez Adelaide Carraro saiu na rua apenas de pijama de flanela debaixo de uma leve garoa, por insistência das crianças da rua para que ela as ajudasse a salvar um gatinho que estava preso no alto de um prédio em construção. No meio da estranha situação (por estar na rua naqueles trajes e ainda debaixo de leve chuva), a escritora se conforta ao lembrar de Honoré de Balzac, que muito vaidoso após um jantar sai para acompanhar uns amigos com um castiçal em mãos, mas não para protege-los, e sim para exibir o novo robe de chambre que acabara de ganhar, ao mesmo tempo ela se censura, dizendo para si mesma que era muita audácia se comparar ao grande literato, mas em seguida ela pensa e indaga consigo "Meus irmãos brasileiros compram, e amam meus livros, então eu tenho esse direito de escritora".

Lamento que a obra principal da escritora, como sua sensibilidade e luta social não eram os elementos mais valorizados e destacados, acredito e defendo que; o escritor é responsável pelo que escreve, e não pelo que o leitor entende, ou em alguns casos deseja entender. 

E, como conclusão entendo que a Prof. Márcia teve como propósito em seu texto, mostrar que há "literariedade" em muito mais fontes ou mídias do que sabemos ou é classificada, basta lermos para encontrarmos, "a literatura não é algo particular ou historicamente determinado, e sim um bem comum da humanidade, que deve ser lido por todos e da mesma maneira".

Obrigado,

Renato Ferreira

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