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domingo, 6 de outubro de 2013

A Cartomante

Meu Resumo do conto A Cartomante de Machado de Assis,para a aula de Literatura


O autor usa o misticismo como tema central do conto, algo que distrai, e atrai o leitor, mas no final o misticismo é apenas uma menção, já que o autor abole o final feliz, surpreendendo o leitor com um final trágico.

Uma parte que não ficou clara pra mim foi a do presente de aniversário que ela deu a ele, por que um bilhete? que palavras vulgares são essas? eu li , voltei, li de novo, porque após a morte da mãe do Camilo, já tem  uma insinuação de que os dois estivessem juntos, ou eu entendi errado?, aquele trecho do jogo de damas, xadrez, livros e passeios era apenas o flerte? eles passam a namorar após o bilhete?, o bilhete é a demonstração explícita dela para com ele? 

"Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pode....ela o picou como serpente" - penso que realmente o trecho dos jogos, dos passeios e dos livros fosse apenas um flerte do casal, pois no momento que diz que ela o picou como serpente demonstra que ele estava seduzido por ela "Pingou-lhe o veneno na boca", e mesmo que ele conservasse remorsos por estar traindo seu melhor amigo, já estava seduzido, era um caminho sem volta, "ficou atordoado e subjugado", " A batalha foi curta e a vitória delirante, adeus escrúpulos".

Machado de Assis é genial, eu adoro suas comparações e expressões, como "Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé",

Na primeira leitura que fiz, fiquei muito curioso para saber quem contou, ou como o Vilela descobriu, e aí meu instinto de Hercule Poirot me levou a uma evidência muito curiosa, a Rita (as Ritas sempre sedutoras né?! me lembrei da Rita morena de O Cortiço) levou as cartas para comparar a letra, será que por um descuido dela o Vilela pode ter visto estas cartas? porque na primeira leitura pensei que o próprio Vilela fosse o autor das cartas anônimas, e o Vilela mudou seu comportamento no mesmo trecho "Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco como desconfiado"..., ao que parece a personalidade do Vilela é muito direta e objetiva, não acho que ele fosse homem de cartas anônimas. A Cartomante não pode ser, porque o Camilo só parou de fazer visitas ao casal após o recebimento da carta, e foi após este evento que Rita procura a Cartomante (porque ela fica perturbada com a ausência de Camilo), então fica difícil distinguir a origem das cartas anônimas.

Os momentos após receber a carta do Vilela são de muita tensão, ele pensa no Vilela escrevendo a carta, e Rita lacrimosa ao lado (lembra muito Rubião e Sofia de Quincas Borba), eu acho este o ponto alto do conto, os momentos de tensão, a perturbação mental dele, o medo misturado a tentativa de se acalmar.

Eu, como pessoa apaixonada pelo Rio de Janeiro adoro os trechos de citação da Cidade Maravilhosa, quando ele vai sentido ao Largo da Carioca, lembro dos artistas de rua tocando instrumento e vendedores de livros que ficam ali na saída do metrô, mas óbvio que este era outro Largo da Carioca, rs! - Mas já existia a Confeitaria Colombo, então é válida a lembrança,rs!

Quando o tílburi pára ele estimou aqueles momentos, porque estava tenso demais, um misto de medo e ansiedade, onde a alma busca paz nos pensamentos e atitudes mais inusitados, e é neste contexto que lhe vem à mente a  frase "Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia", ele está tão tenso, e perdido suas crenças colocadas em jogo, uma confusão mental, que o faz ir a Cartomante, algo que em sã consciência jamais faria, este trecho é tão humano, é tão nosso (do ser humano), todos nós ficamos assim diante de uma situação como esta, revela a fragilidade humana diante da ansiedade que se deu por uma carta, com palavras subentendidas (subentendidas na cabeça DELE, porque o texto era claro, não permitindo ambiguidade), neste caso vale a velha máxima "Quem deve teme!".

Eis agora o trecho da Cartomante, e por que eu a acho uma "velhaca", a Cartomante diz que ele deve ter um grande susto, mas a própria feição dele denuncia isto, ele está abalado e não consegue distinguir a sagacidade dela, ela é uma comerciante, e não uma cartomante como um cigana no sentido cultural da palavra, ela é oportunista, vive de golpes, ela fica em uma posição que a luz bate toda no rosto dele, para lhe estudar as feições, ela diz que ele quer saber se algo irá lhe acontecer, e ele emenda: - "a mim e a ela" , isso para a cartomante já é um indício, ela não revela absolutamente nada.

Mesmo eu achando tudo isso, meu raciocínio a respeito dela pode ser colocado em jogo quando ela menciona o "terceiro" (Vilela), mas nada me tira da cabeça que ela é oportunista e golpista, e mesmo que ela tenha tido alguma mediunidade não adivinhou o futuro e suas previsões não se cumpriram, pois ela diz que nada lhes aconteceria.

O momento seguinte é real, eu consigo imaginá-la indo a tal cômoda pegando o prato de passas, para de um jeito sutil cobrar-lhe, e a resposta dela à pergunta dele pelo valor da consulta "pergunte a seu coração" deixando-o em uma situação delicada, prevendo que por seu estado ansioso lhe daria mais do que a consulta normalmente custaria. Neste trecho eu gosto muito da delicadeza dele, da educação em pagá-la bem por restituir-lhe a paz de espírito, isso faz dele uma pessoa grata.

E para finalizar, não vou relatar o final porque há pessoas que ainda não leram, vou deixar este trecho que achei muito lindo "Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito".

Renato Ferreira

domingo, 8 de setembro de 2013

Onde está a literariedade nos textos


Este é o texto de minha participação na aula de literatura, que tem como debate o texto da Prof. Márcia Abreu que questiona a literariedade de um texto qualquer, entre suas indagações: como um texto pode ser considerado uma obra literária? E em meu texto incluí Adelaide Carraro, a grande escritora brasileira, espero que gostem. 

Deixando de lado os pormenores avaliativos, como os critérios que uns vão concordar e outros não, vamos direto ao que interessa. No texto ficou claro que, o modo como o leitor lê (ou vê) o texto, faz com que ele já crie uma opinião pessoal, ou forme um pré julgamento, e no texto este exemplo fica claro quando ela relata o modo como o livro de Machado de Assis foi recusado pelas editoras, e pela professora que lê o poema Teresa e o porquinho da índia, que já sabendo que o texto seja do livro de Manuel Bandeira percebe a repetição e a redundância passando de defeito a virtude. 

Logo no início a autora já nos chama para a reflexão do texto, que é o que realmente importa, conforme descrição da página 23 "Os critérios de seleção, segundo boa parte dos críticos, é a literariedade imanente aos textos, ou seja, afirma-se que os elementos que fazem de um texto qualquer uma obra literária são internos a ele e dele inseparáveis, não tendo qualquer relação com questões externas a obra escrita, tais como o prestígio do autor ou da editora que o publica por exemplo."
Um mesmo texto ganha sentidos distintos de acordo com aquilo que se imagina, mas precisamos saber que não temos que imaginar antes de ler, temos que LER, RELER e LER novamente até entender exatamente o que o escritor escreveu. 

E neste contexto eu me lembro da querida e saudosa escritora Adelaide Carraro, que na época de lançamento de seus livros era rotulada como "escritora maldita" por fazer denúncias de importantes políticos e empresários, Adelaide também era vista como escritora de literatura pervertida e erótica. Mas para quem leu suas obras, e acompanhou sua vida através dos livros, sabe que essa  "rotulação" é indevida e injusta, e em nada retrata a realidade de seus livros.

Para quem não conhece, Adelaide Carraro* foi uma grande escritora brasileira, autora de grandes sucessos como "O Estudante" e "Eu e o Governador", mas que por descrever em detalhes cenas de sexo, onde inclusive denunciava pessoas que abusavam do poder para obter sexo com jovens, moças ou rapazes em troca de cargos públicos e empregos, tanto na política como no setor artístico como a televisão, ficou classificada deste modo, pelos mesmos críticos que não leram em sua obra, seu grande esforço nas causas sociais, como a criação da casa do ex tuberculoso pobre, quando defendia a idéia de que ex prostitutas e travestis dependiam de empregos dignos para não viverem mais na obscuridade da sociedade e outros temas de grande sensibilidade. Adelaide defendia também o fim do racismo racial e tinha um forte apelo contra os maus tratos a animais, isso e muito mais o leitor pode sentir e vivenciar em sua extensa obra, inclusive no ano de 2006 conversei com Antônio Carlos Carraro, sobrinho da escritora mencionado em seu livro "Gente - o dia em que fui presa"de 1977, e ele me confirmou que sua tia era tão sensível a ponto de retirar animais de rua  e levá-los para a própria casa. 

Existe um fato muito oportuno a dizer sobre a Adelaide Carraro exatamente em relação a questionamento de literariedade, certa vez Adelaide Carraro saiu na rua apenas de pijama de flanela debaixo de uma leve garoa, por insistência das crianças da rua para que ela as ajudasse a salvar um gatinho que estava preso no alto de um prédio em construção. No meio da estranha situação (por estar na rua naqueles trajes e ainda debaixo de leve chuva), a escritora se conforta ao lembrar de Honoré de Balzac, que muito vaidoso após um jantar sai para acompanhar uns amigos com um castiçal em mãos, mas não para protege-los, e sim para exibir o novo robe de chambre que acabara de ganhar, ao mesmo tempo ela se censura, dizendo para si mesma que era muita audácia se comparar ao grande literato, mas em seguida ela pensa e indaga consigo "Meus irmãos brasileiros compram, e amam meus livros, então eu tenho esse direito de escritora".

Lamento que a obra principal da escritora, como sua sensibilidade e luta social não eram os elementos mais valorizados e destacados, acredito e defendo que; o escritor é responsável pelo que escreve, e não pelo que o leitor entende, ou em alguns casos deseja entender. 

E, como conclusão entendo que a Prof. Márcia teve como propósito em seu texto, mostrar que há "literariedade" em muito mais fontes ou mídias do que sabemos ou é classificada, basta lermos para encontrarmos, "a literatura não é algo particular ou historicamente determinado, e sim um bem comum da humanidade, que deve ser lido por todos e da mesma maneira".

Obrigado,

Renato Ferreira